Crônicas
Crônica do perfil de um futuro taquígrafo
Hoje em dia muito se fala das vocações, das profissões a escolher, as de sempre, como medicina, engenharia advocacia. Alguém já ouviu alguma criança ou adolescente falando que quer ser taquígrafo ou taquígrafa? Acho que não. A profissão de taquígrafo não está adstrita ao comum, ao imaginário, mas sim, a um “acidente de percurso”.
No mercado de trabalho de hoje tão difícil para determinadas profissões, onde tudo é saturado e mal remunerado, pessoas com nível superior não sendo remuneradas de acordo com a sua capacidade. Aí observamos os concursos públicos, gente procurando “estabilidade”, já que na iniciativa privada não se tem estabilidade alguma. Basta algo que movimente os mercados globais ou os países de Primeiro Mundo sofrerem algum tipo de revés econômico, estoura aqui nos países terceiro mundistas.
E aí se observa o mercado de trabalho voltado para os concursos públicos, candidatos com nível superior disputando vagas de nível médio a salários irrisórios, tudo pela estabilidade, os chamados “concursos do milhão”, ou seja, não milhão em termos monetários, mas milhão mesmo de pessoas concorrendo, milhares de pessoas disputando poucas vagas para salários não tão bons. Claro, tirando concursos para auditores, magistrados, delegados, etc, profissões de alto nível, profissões de Estado, em sua maioria, os concursos têm muitas inscrições e baixa remuneração. Nesse contexto todo, surge a taquigrafia e, por consequencia, o cargo de taquígrafo. Quantos por aí perguntam: “Mas ainda existe taquigrafia? O computador não substituiu? O gravador não pode substituir? Para que um taquígrafo se tem o “Voice” (decodificador de voz)”? Mas essa profissão não é “jurássica”? E respondemos apenas, assim: “Está tendo concursos públicos na área da taquigrafia? Sim, está, em média, 6 (seis) por ano, com salários atingindo de R$ 6.500,00 até R$ 10.000,00, por vezes. E o número de inscritos nesses concursos?
Aqui no Rio Grande do Sul nunca passou de 400 inscrições, mas, no geral, a média é mais baixa, 178, 280 inscritos, etc. E como uma pessoa chega na taquigrafia, tem o seu primeiro contato? É tudo um “acidente de percurso”, como salientei acima. Na procura pelo mercado de trabalho, um dia se defronta com a taquigrafia, ela cai no colo, de repente, seja por alguém que falou alguma vez dela, seja por um comentário ouvido, lido, visto. Eu, por exemplo, o meu primeiro contato com a taquigrafia, na realidade, com um taquígrafo, foi dentro de uma piscina, ao conhecer um profissional taquígrafo ao vivo, um taquígrafo da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, que me falou maravilhas da profissão, como é o trabalho, mas o que mais me interessou e me chamou a atenção foi o salário e a qualidade de vida que a profissão poderia me oferecer.
No mesmo dia procurei a professora que ele me indicou e, em menos de um ano, estava sendo aprovado em um concurso público para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, quem diria, eu, um engenheiro mecânico formado, era, a partir de agora, um taquígrafo. E qual é o perfil de um taquígrafo? É simples, existe o “talento” e o “tá lento”. Existe aquela pessoa que tem o talento nato, é intrínseco a ela, que aprende muito rápido e tem o fruto rapidamente num concurso; e existe o “tá lento”, que é a maioria, como eu fui, que na base da perseverança, da dedicação, da excelência nos estudos, no rápido agir, de incluir o estudo da taquigrafia na sua rotina de vida.
Quando atendo o telefone, dou as informações sobre o curso e a pessoa do outro lado da linha diz: “Vou pensar! Te ligo depois”! Essa não tem o perfil de um taquígrafo, e se fizer o curso, vai desistir lá na frente, na primeira dificuldade. Agora, aquela que liga e tem as informações e diz: “Posso reservar uma vaga, eu quero em tal turma”...bem, essa tem o perfil, pois o taquígrafo não pode pensar, é automático, não dá tempo para pensar, essa terá frutos, e se “O-B-D-C”, que é o nosso novo alfabeto no ensino da taquigrafia, com certeza, passará em um concurso público para a taquigrafia.
Às vezes me perguntam: “É difícil aprender isso, será que eu consigo, não é impossível”? E eu respondo, com singeleza: “O impossível é feito de pequenos possíveis”, ou seja, a cada dificuldade, uma possibilidade até se buscar o tal “impossível”, que, para nós, taquígrafos, hoje é uma realidade bem possível!
EDUARDO TREVISAN DUARTE, Taquígrafo Forense concursado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul desde 1986 e Professor de Taquigrafia.






